Eliara Santana: Em editorial, Folha chama Lula de “democrata flexível” e o compara a Bolsonaro

Nas articulações para a eleição de 2018, ainda em 2017, a mídia corporativa brasileira fez um primeiro movimento de mostrar a polarização ente Lula e Jair Bolsonaro – em diversas matérias, havia uma equiparação entre os dois candidatos, como se eles se equivalessem num espectro democrático.

Eram ambos, Lula e Bolsonaro, tratados como equivalentes, como intolerantes, como defensores de ditaduras, como candidatos que iriam aparelhar o Estado.

Enquanto havia a esperança de que algum picolé de chuchu fosse capaz de se colocar efetivamente como candidato em condições de disputa, havia esse movimento.

Depois, a mídia prontamente aderiu aos métodos nada republicanos de Sérgio Moro e sua Lava Jato – ou seja, validou e deu suporte às investidas do ex-juiz que se tornou ministro na articulação da prisão do candidato (Lula) que estava à frente em todas as pesquisas.

Hoje, 24 de novembro, a um ano das próximas eleições, o editorial da Folha de S. Paulo, jornal que proibiu que Jair fosse tachado de candidato da extrema-direita, anuncia a retomada dessa primeira linha (já que a segunda me parece um pouco difícil no momento). Em seu editorial, anuncia um “Democrata flexível”. Começa o texto:

“Quem tem memória dos 13 anos de governo petista, e da trajetória de mais de quatro décadas do Partido dos Trabalhadores, não estranhou a argumentação escalafobética do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para defender ditaduras amigas da esquerda brasileira”.

Portanto, vocês já descobriram que o flexível em relação à democracia é Luiz, e não Jair. E também já descobriram que o que se coloca em cena é a tática de desconstrução desse candidato, Luiz, para as eleições do ano que vem.

No momento, o único ponto passível de ser utilizado é uma suposta “flexibilidade” do candidato em questão em relação à democracia. E isso concluído a partir de respostas a três perguntas sobre a América Latina em entrevista ao jornal espanhol El País.

A pressuposição trazida como verdade é também confirmada pelos “anos” de conhecimento do jornal em relação à “argumentação escalafobética” do representante petista.

No jornal El País, a manchete foi:

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, EX-PRESIDENTE DO BRASIL

“Tenho que voltar para recuperar o prestígio do Brasil”

Vejam as perguntas feitas pelo jornal El País, com as respostas:

P. Falemos da América Latina e, concretamente, de países que experimentaram deteriorações democráticas. No caso da Nicarágua, que teve eleições recentes não reconhecidas pela comunidade internacional, qual é seu diagnóstico?

R. Quando governei tentaram me convencer de que fosse a um terceiro mandato, e eu disse não, porque sou favorável ao rodízio de poder. Disse em uma entrevista que todo político começa a acreditar que é imprescindível e insubstituível e começa a virar um pequeno ditador. Eu era contra a candidatura de Daniel Ortega mais uma vez. A Frente Sandinista tem muita gente para se candidatar. Também fui contra Evo Morales ser candidato —ele já havia feito dois mandatos extraordinários. E o mesmo com Chávez. Posso ser contra, mas não posso interferir nas decisões de um povo. Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder, e Daniel Ortega não? Por que Margaret Thatcher pode ficar 12 anos no poder, e Chávez não? Por que Felipe González pôde ficar 14 anos no poder?

P. Mas Merkel e González não prenderam seus opositores.

R. Não posso julgar o que aconteceu na Nicarágua. Eu fui preso no Brasil. Não sei o que essas pessoas fizeram. Só sei que eu não fiz nada. Na Venezuela espero que se Maduro ganhar [nas eleições regionais e locais realizadas no sábado] se acate o resultado, e se perder também.

P. Outro caso de limitação de direitos na América Latina foi a proibição de manifestações nesta semana em Cuba.

R. Essas coisas não acontecem só em Cuba, mas no mundo inteiro. A polícia bate em muita gente, é violenta. É engraçado porque a gente reclama de uma decisão que evitou os protestos em Cuba, mas não reclama que os cubanos estavam preparados para dar a vacina e não tinham seringas, e os americanos não permitiam a entrada de seringas. Eu acho que as pessoas têm o direito de protestar, da mesma forma que no Brasil. Mas precisamos parar de condenar Cuba e condenar um pouco mais o bloqueio dos Estados Unidos.

P. Mas, presidente Lula, é possível fazer as duas coisas: condenar o bloqueio e pedir liberdade nas ruas aos opositores.

R. Quem decide a liberdade de Cuba se não o povo cubano? O problema da democracia em Cuba não será resolvido instigando os opositores a criar problemas para o Governo. Será conquistada quando o bloqueio acabar.

As respostas de Lula podem ter pontos questionáveis? Sim, podem.

Até porque esses temas são muito complexos para se esgotarem em dualismos ou interpretações pueris.

O jornal questionou, e Lula respondeu. Foram quatro perguntas num conjunto de duas páginas inteiras de entrevista. E somente essas colocações – que não são infundadas nem estapafúrdias – serviram para o jornal paulista tachar Luiz, imediatamente, de “democrata flexível”. E para esquecer tudo o mais que ele disse e tudo o mais que os governos de Luiz fizeram em dois mandatos.

Uma pessoa que, mesmo sabendo tamanho da injustiça que era sua prisão não cedeu à tentação de pedir asilo (em Cuba, por exemplo) e aceitou se entregar à Policia Federal, cumprindo ordem de prisão de Sergio Moro, porque queria provar sua inocência sob os trâmites da Lei, respeitando o judiciário brasileiro, aquele que se aliou vergonhosamente à Lava Jato.

Lula respeitou quando a justiça não o deixou ir ao velório do irmão, Lula não insuflou os manifestantes que estavam na porta do sindicato dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, quando de sua prisão.

Vale muito lembrar que a Folha de S. Paulo, que agora se instaura como democrata ilibada, é aquele jornal que se referiu a um dos piores momentos da história do país, a ditadura militar, como “ditabranda”, e até ofereceu seus veículos para transportar presos políticos naqueles períodos de perseguição política e tortura.

Luiz, respeitando a democracia e suas instituições, cumpriu mais de um ano de prisão e provou sua inocência pelos trâmites da justiça brasileira. É esse o “democrata flexível”?

O jornal paulista que chamou ditadura de “ditabranda” nunca se interessou em entrevistar Luiz, em saber o que ele pensa, em questioná-lo, em confrontá-lo.

Prefere silenciá-lo como se ele não fosse o que de fato é: o presidente mais popular do país e o que conseguiu tirar da miséria milhões de brasileiros.

Ademais, as refutações construídas pelo editorial são um tanto quanto distorcidas.

Por exemplo, o texto diz que “Questionado pelo jornal espanhol El País sobre a situação da Nicarágua do ditador Daniel Ortega, reconduzido pela terceira vez seguida num processo eleitoral de fancaria, o líder do PT saiu-se com um repisado sofisma: se governantes europeus como a alemã Angela Merkel podem ficar 16 anos no poder, por que Ortega ou o venezuelano Nicolás Maduro não podem?”.

Não foi exatamente assim – e então eu entendo as razões pelas quais a imprensa brasileira tem horror ao pluralismo e à menção do debate sobre regulação da mídia. Lula citou Merkel mas, antes, ele se diz contrário ao terceiro mandato de Ortega. Vocês podem conferir nos trechos que coloquei aqui e no vídeo com a entrevista (veja, no topo).

Prosseguindo o editorial, a construção argumentativa é fundada numa adjetivação bastante pejorativa, com propósito bem evidente de menosprezar aquele de quem se fala. O texto chama apoiadores de Lula e do PT de “círculo de bajuladores”, chama Lula de “democrata flexível”, fala em “retrógrada oposição petista”.

De fato, creio que não é possível esperar muito mais de um jornal que usou como sujeito, para abordar as transformações no período de 2003 a 2014 o substantivo “década” – não “governos petistas”, Lula, Dilma –, e que achou errado chamar Jair de genocida.

Gosto muito de ver a imprensa que apoiou incondicionalmente todas as arbitrariedades e armações da Operação Lava Jato se arvorar de modo tão enfático para defender, em outras moradas e países, claro, o Estado Democrático de Direito. Segundo o editorial,

“Ditaduras negam aos encarcerados o direito de apelar pela liberdade e a inocência até a última instância perante juízes independentes. Essa é uma prerrogativa exclusiva do Estado democrático de Direito, de que tem usufruído à plenitude o ex-presidente brasileiro”.

À luz dessa fala tão articulada e defensora inconteste da liberdade, gostaria de entender como o jornal explica a prisão de Lula para tirá-lo da eleição e toda a articulação da operação Lava Jato, que teve na imprensa uma grande e eficaz assessoria de imprensa.

Eu não acho Lula ou o PT ou Dilma inquestionáveis. De forma alguma – há questionamentos a ações e a comportamentos, há problemas que devem ser apontados e discutidos – questionei a nota em apoio a Ortega, por exemplo.

Mas, é preciso reconhecer que esses espaços não são equitativos. O único espaço dado aos governos petistas, e sobretudo a Luiz Inácio Lula da Silva, é um espaço com viés negativo, muito negativo.

Lula acabou de fazer uma viagem importantíssima pela Europa, com agenda de chefe de Estado; foi recebido por vários líderes, como o presidente francês Emmanuel Macron, discursou em lugares de muita relevância, como o Parlamento Europeu, foi aplaudido de pé. Quase nada disso teve destaque na mídia.

Agora, ganha destaque esse recorte da entrevista de Lula ao jornal espanhol El País no encerramento da viagem à Europa. Uma entrevista, vale dizer, com chamada de destaque na capa e duas páginas no miolo.

Em que Lula fala do Brasil, da necessidade de superação, fala que não tem desejo de vingança, fala da disposição de trabalhar, das conquistas, dos desafios, do desejo de fazer os brasileiros voltarem a comer três vezes por dia…mas o que tem peso são três respostas no meio da entrevista toda. Falas que não são sobre o Brasil, nem são contundentes.

No portal do El País Brasil, a entrevista também foi destaque :

“Tenho que voltar para recuperar o prestígio do Brasil, e que o povo coma três vezes por dia”.

No editorial da Folha de S. Paulo, fechando com chave de ouro:

“Agrada-se assim à militância fiel e ideológica, correndo-se o risco de suscitar a repulsa dos demais eleitores. De maneira mais tosca, é o que faz Bolsonaro também”.

No El País, Lula aparece assim:

 No editorial da Folha, assim:

É de fato uma estratégia que será construída para atingir Lula, uma vez que a tal terceira via está se viabilizando com Sergio Moro, o ex-juiz que prendeu um candidato e se tornou ministro do outro. E que sem dúvida terá o apoio da Faria Lima e da Folha.

*Eliara é jornalista e doutora em Linguística pela PUC/MG

Veja a publicação original aqui.


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