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    Desmatamento no entorno da BR-319 dobra após anúncio de asfaltamento – Agência Pública

    A expectativa de asfaltamento da BR-319, rodovia que corta o Amazonas ligando Porto Velho (RO) a Manaus, fez o desmatamento em seu entorno mais que dobrar entre 2020 e 2022.

    Após o anúncio do governo Bolsonaro, no fim de 2020, de que um trecho da via seria pavimentado, a derrubada da floresta, que vinha acelerando desde 2017, cresceu 110% em apenas um ano. Saltou de 216 km2 em 2020 para 453 km2 em 2021. No ano seguinte subiu ainda mais um pouco, chegando a 480 km2. São os maiores valores registrados naquela região desde 2001.

    É o que mostra um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) a pedido do Observatório do Clima e compartilhado com a Agência Pública. A análise, que considerou os desmatamentos em uma faixa de 50 km de cada lado da estrada, entre 2001 e 2022, ajuda a entender a dinâmica da região.

    No início dos anos 2000, assim como estava ocorrendo em toda a Amazônia, o desmatamento naquela região também estava elevado. Começou a cair em 2005, quando teve início o PPCDAm, programa criado no primeiro governo Lula de combate ao desmatamento. Chegou ao menor valor em 2009 e se manteve relativamente baixo até 2016. Em 2017 voltou a subir e explodiu a partir de 2020.

    Para especialistas em desmatamento, o avanço tem relação direta com a promessa de pavimentação. Em setembro de 2020, o então ministro de Infraestrutura, Tarcísio Freitas, hoje governador de São Paulo, afirmou em reunião com governadores da Amazônia que iniciaria a obra em um trecho de 52 km da rodovia. Disse também que o plano era ter até 2022 “toda a extensão da rodovia 319 contratada e em serviços”.

    No encontro, chegou a dizer que a via seria um “modelo no que diz respeito à preservação do meio ambiente” e que “o desenvolvimento pode coexistir com a sustentabilidade”.

    A BR-319, construída no início dos anos 1970 pela ditadura militar, foi pavimentada no início das suas operações, mas acabou sendo abandonada no fim dos anos 1980 por ter ficado intransitável. A repavimentação já tinha sido discutida em outros governos, mas na gestão Bolsonaro foi alçada ao nível de prioridade.

    É a única saída por terra de Manaus para o resto do país e, por isso, uma reivindicação antiga de governantes locais principalmente para o tráfego de pessoas. Mas os riscos potenciais de desmatamento acenderam vários alertas. Diversos estudos mostram que, ao longo do processo de ocupação da Amazônia, as rodovias funcionaram como os maiores indutores de devastação da floresta. No caso da BR-319, há um agravante. Ela corta o maior bloco de florestas ainda preservadas da Amazônia.

    Os pesquisadores Lucas Ferrante e Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), estimaram que a rodovia e o desmatamento associado afetariam 63 terras indígenas, onde vivem 18 mil pessoas.

    O avanço da devastação ao longo da BR-319 fez com que o Estado do Amazonas, nos últimos dois anos, assumisse a segunda posição entre os mais desmatados na região, o que nunca tinha ocorrido. No ano passado, foi o único Estado que teve alta de desmatamento na Amazônia.

    Hoje, as duas pontas da rodovia, mais perto das capitais, têm asfalto, mas no meio não. Além dos 52 km anunciados por Tarcísio em 2020, há um trecho maior, conhecido como “trecho do meio”, com 405 quilômetros de extensão, que também precisa de pavimentação. Em julho do ano passado, faltando menos de três meses para as eleições, o então presidente do Ibama, Eduardo Bim, concedeu a licença-prévia para a obra, contrariando recomendações feitas há 14 anos pelos próprios técnicos do órgão.

    Em 2008, no segundo mandato de Lula, o então ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, criou um grupo de trabalho para acompanhar o processo de licenciamento da rodovia, com a presença de técnicos do Ibama, do ICMBio e do órgão ambiental do Amazonas.

    O grupo estabeleceu pré-condicionantes que deveriam ser adotadas antes mesmo da licença prévia, sendo a principal a criação de 16 unidades de conservação dos dois lados da estrada antes do início das obras. Isso nunca aconteceu. Bolsonaro, por sua vez, não criou nenhuma unidade de conservação no seu governo.

    Logo que Tarcísio anunciou as obras, ainda em 2020, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais publicou uma nota técnica estimando o que poderia acontecer na região da BR-319 com o asfaltamento e os decorrentes fluxos migratórios, expansão agrícola e ocupação de terras. Eles calcularam que a devastação poderia quadruplicar na zona de influência da rodovia até 2050.

    O líder do trabalho, o pesquisador Britaldo Soares-Filho, afirmou à Pública que esse aumento já observado nos últimos dois anos corresponde ao pior cenário imaginado pelo grupo, composto também por Juliana Leroy Davis e Raoni Rajão.

    “A especulação fundiária se antecipa aos eventos. Quando tem um anúncio de asfaltamento de uma estrada, só isso já dispara o desmatamento, o posicionamento de grileiros para conseguir terras a um custo praticamente zero, que depois vão tentar uma regularização fundiária para vender para outras pessoas”, comentou.

    Leia a matéria completa em A República

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    vale a leitura