CRÔNICA: Lembrar o passado, saborear o presente e projetar o futuro com o prazer pleno da vida

Quando criança e até à adolescência, um dos meus maiores sonho era ter uma máquinas fotográfica. Achava bonito o registro e a eternização dos momentos em imagens.

Isso era tão inacessível… 

Até hoje eu procuro entre os irmãos a única fotografia da minha infância aos dois anos. Ninguém sabe onde ela está. Lembro que estava numa cadeira de cipó.

Esse registro está apenas na memória. Tenho certeza de que jamais irei recuperar aquela fotografia tirada há mais de 54 anos.

Até a maioridade não consegui realizar o sonho de menino.

Olha como as coisas são estranhas. Quis o destino, porém, que o meu primeiro casamento fosse com uma moça que trabalhava numa loja de fotografias. 

Com a Edilma eternizei a relação com dois filhos, o Yuri e o Ian.

Nesse século XXI a máquina fotográfica praticamente virou peça de museu. No momento em que estou escrevendo, milhões de fotografias foram tiradas nos mais diferentes locais do mundo. 

Os smartfones tornaram tudo mais fácil e democratizaram a fotografia antes restrita apenas a quem tinha melhor poder aquisitivo.

Há um novo mundo entre as nossas rotinas e retinas.

A vida é incrível. 

Viver é melhor ainda.

Gabriel Garcia Márquez, o Prêmio Nobel nascido na Colômbia, escreveu que a vida não é o que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.

Ele estava certo.

A minha mãe, ainda jovem, com um dos meus irmãos no colo.

Quando somos adolescentes, a nossa memória está focada no futuro. Após mais de meio século de vida, a memória vai buscar o que já vivemos.

Ultimamente tenho buscado as fotografias do que já vivi. 

O passeio tem sido incrível. Lembro do menino que fui e do homem que me tornei. O primeiro forja o segundo. Somos no presente o que erguemos no passado.

Nessa viagem ao tempo, é sagrado lembrar que os meus pais, Orieta e Zeca Matias, nos levaram pelos lugares mais distantes do Rio Juruá.

Ele era da extinta guarda do então território federal do Acre. Homem simples, de pouco estudo, mas cheio de coragem e retidão.

Guardo pouca ou nenhuma lembrança desse tempo. Da permanência em Foz do Breu, na distante fronteira do Peru, não lembro de nada. Eu tinha apenas um ano.

Mas gosto de dizer que sou de Foz do Breu, local onde voltei depois de adulto, em 2014. Vendo como a vida passa lenta naquela localidade, imaginei o quanto era difícil sobreviver ali na metade da década de 1960.

Foz do Breu, pouco acreanos conhecem.

A minha mãe conta que todos contraíram malária e ninguém tinha força para reagir. Diz também que a generosidade do meu pai trouxe dificuldades na alimentação. Ele compartilhou com os nativos, em poucos dias, os mantimentos que tinha levado para um ano. 

Mas vivemos. E sobrevivemos.

Lembro com clareza da antiga Vila Humaita. Morávamos na delegacia, porque o meu pai era a autoridade policial do hoje município de Porto Walter. 

Era engraçado subir nas celas em madeira e jogar banana para os presos comerem. Não eram bandidos de alta periculosidade. Tratavam-se de pessoas que cometiam pequenos delitos.

Recordo que um primo chamado Armando, que hoje não está entre nós, subiu num mangueira, balançou os galhos e uma manga caiu na minha cabeça.

Na última vez que estive em Porto Walter não caiu manga na minha cabeça

O choro infantil tornou-se berro.

As mangueiras está lá até hoje para contar a história.

Embora tenha nascido em Cruzeiro do Sul, vivi pouco na segunda maior da cidade do Acre. 

Recordo que quase morri afogado, junto com a minha irmã Neila, no igarapé que passava atrás da nossa casa na Linha do Tiro.

Ela gritava: – Leléo, Leléo, Leléo…

Eu não sabia nada, ela também não. Mas estamos vivos para contar a história.

Acompanhei, em cima de um morro, os corpos de um trágico acidente aéreo ocorrido em 1971.  A tristeza estava no ar.

Anos depois compreendi que havia morrido pessoas importantes do município. Que o bispo dom Giocondo Maria Grotti também tinha ido a óbito.

Quando o desastre completou 25 anos, eu fui a local onde o avião caiu. Fiz uma reportagem que publiquei no jornal Página 20. Os restos da aeronave ainda estava no mesmo local. 

Coragem para mudar o destino nunca faltou aos meus pais. 

Da mesma forma que nos levaram para as “brenhas” amazônicas, em 1972 resolveram se mudar para a capital.

Sempre digo que foi a melhor decisão que tomaram na vida. Onde estaríamos hoje, se não fosse a ousadia deles?

Embarcamos na aeronave da Força Aérea Brasileira de nome “Catalina”. Que viagem longa… Dentro do avião estava escrito: “Devagar, mas chegamos lá”. 

Chegamos e nunca mais saímos. 

Rio Branco é a cidade que me viu crescer e a reciproca é verdadeira.

As melhores e as piores imagens da minha vida estão registradas aqui.

Eu nunca fui organizado para registrar o que fiz. 

Aquela máquina fotográfica que faltou nos meus primeiro anos de vida foi substituída pelas fotografias que guardo na memória.

Nossa, como é bom viajar naquilo que já vivemos. 

Tive a melhor das infâncias, correndo livre nas ruas em dias de chuva ou de sol. Jogando futebol, tomando banho em igarapés, colhendo frutas, brigando e apanhado nas disputa normais das turmas.

É doce recordar até dos momentos amargos. 

Beirando às seis décadas de vida, lembro dos amigos que há muitos anos não os vejo. Cada um seguiu o seu destino. Outros, infelizmente, fizeram a passagem cedo. 

Na memória habita os nossos maiores tesouros, as nossas melhores fotografias. 

Esses tesouros se tornam mais valiosos na medida em que percebemos que temos mais passado do que futuro. Penso que devemos aproveitar cada gota do tempo que ainda temos para viver.

Gabriel Garcia Márquez foi fundamental na minha vida. Li muitos dos seus livros. Esse brilhante escritor perdeu a memória nos últimos anos de vida.

Marquez dizia que  a única opção que não aceitava era a de morrer.

“Acho que a única coisa realmente importante é a vida, estar vivo. E acho que a morte é uma armadilha, uma traição imposta sem nos dar escolha. E é sem o nosso envolvimento. Simplesmente acontece. Eu acho injusto”.

Realmente a morte é injusta, mas é inevitável. 

Diante do inevitável, vamos escrevendo sobre o passado, aproveitando o presente e saboreando o que nos resta para o futuro.

Sempre com coragem e amor pleno.

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