Antes de encarar pressão no Corinthians, Tiago Nunes já foi campeão no Acre e demitido a mando de um prefeito

Por Daniel Lisboa, Samir Carvalho e Vanderlei Lima, do UOL, em São Paulo

“Futebol é um esporte de resistência, você tem que seguir, que uma hora vai dar certo.”

Muito antes de chegar ao Corinthians, bem antes de sua impressionante passagem pelo Athletico-PR, Tiago Nunes, aos 40 anos, já teve de percorrer o Brasil profundo. Ele trabalhou em diferentes funções, condições e localidades.

Mesmo em Curitiba, seu caminho rumo ao sucesso não foi tão claro assim. Hoje técnico prestigiado, ele chegou ao Furacão em 2017 para comandar o time sub-17. Então, assumiu o sub-23 e levou os aspirantes ao título paranaense de 2018. A chance com o elenco principal só veio no segundo semestre do mesmo ano, depois da queda de Fernando Diniz. Ficou um bom tempo com o selo de interino carimbado em seu currículo, até efetivado em janeiro de 2019, depois de já ter vencido a Copa Sul-Americana. Depois veio o título da Copa do Brasil.

Essa ascensão repentina pelo Athletico fez dele uma coqueluche no mercado da bola. Seu nome foi ventilado a cada nova demissão de treinador no futebol brasileiro. Escolheu o Corinthians. Agora, sem nem ter completado dois meses à frente do clube, já lida com uma forte pressão por melhores resultados. Para os críticos, não importa que os ruídos de uma transição entre o futebol excessivamente defensivo do time na temporada passada para uma equipe mais agressiva neste ano já fossem esperados.

Seu Corinthians tem mostrado lampejos aqui e ali, mas entra em campo nesta quarta (26), contra o Santo André, ciente de que, entre os 20 clubes da Série A, tem o segundo pior aproveitamento pelos Estaduais. Sem contar, claro, o baque pela queda precoce sofrida na Libertadores.

É um cenário desafiador, não há como negar. Agora, para quem teve a carreira que teve até chegar à elite, só dá para esperar mais uma tentativa de resistência por parte de Tiago Nunes. A frase que costumava dizer ao amigo Tarcísio Pugliese, hoje comandante do XV de Piracicaba, de quem foi auxiliar e preparador físico, o faz lembrar situações não tão prósperas atrás do sonho de ser treinador de futebol.

“O Tiago tem uma carreira muito sofrida. Teve oportunidades muito ruins, mas falava que o futebol é um esporte de resistência, que você tem que seguir que uma hora vai dar certo. Hoje, sem dúvida, é a maior prova disso. Quem conhece a carreira dele sabe o quanto ele resistiu pra chegar nesta situação que ele está hoje”,

Tarcisio Pugliese, atual treinador do XV de Piracicaba e amigo pessoal de longa data

Um técnico no Brasil profundo

A distância entre Santa Maria (RS), cidade natal de Tiago Nunes, e São Paulo, onde treina o Corinthians, é de 1.200 km, mas no caminho entre seu início como preparador físico no Internacional da cidade do interior gaúcho, em 2003, até assumir o comando do Alvinegro, o treinador percorreu mais de 33.000 km, com passagens por outros 21 clubes e 20 cidades.

Graduado em Educação Física pela Universidade de Santa Maria, Nunes iniciou seu trabalho na própria cidade onde nasceu. Em uma carreira não tão longa assim, trabalhou em todas as regiões do país. No Rio Grande do Sul, as oportunidades apareceram apenas nas categorias de base dos grandes clubes. Mas no Brasil profundo, ele desempenhou diversas funções em Rio Branco, (AC), Manaus (AM), Lucas do Rio Verde (MT), Ipameri (GO) e Bacabal (MA).

Pelo Bacabal, por exemplo, mesclou as funções de preparador físico e auxiliar-técnico. Pelo Nacional do Amazonas, trabalhou por um curto período e conheceu as dificuldades de um calendário diferente do encontrado nas regiões Sul e Sudeste do futebol no Brasil, com poucos meses de calendário garantido numa temporada.

“Era um cara muito sonhador. O incrível é que ele consegue fazer o time dele sem estrelas. Então ele achava que tinha bons jogadores, que daria para gente ser campeão. Nunca exigiu que queria determinado jogador. Pelo contrário. Ele é um treinador de muita fé”

Natal Xavier, presidente do Rio Branco (AC), quando Nunes levou o time ao título acreano de 2010

“Aqui a gente tem o calendário curto, então sabe como é: trabalha somente aquele espaço e termina assim. Alguns jogadores a gente consegue ajudar com algum percentual, mas outros não, eles são liberados para outros clubes, e o Tiago não ficou por esse motivo”.

Gilson Motta, diretor do Nacional (AM) em 2011

Da adversidade à criatividade

Nunes encarou algumas situações que ajudam a relativizar qualquer dificuldade encontrada em grandes centros. Mesmo que, no Corinthians, a combinação de pressão e escrutínio enfrentado possa chegar a níveis alarmantes.

Seus métodos de trabalho agradam à diretoria corintiana. Os treinos no CT Joaquim Grava são considerados inovadores também pelos jogadores e profissionais da comissão técnica. Ele se mostrou organizado e sério fora de campo, mas é a tática que mais chama a atenção no momento. A busca por um jogo mais vertical, de ocupação de espaços —sem que fiquem apegados a uma posição fixa—, com volantes olhando para frente… São todos elementos muito bem-vindos depois de anos praticando um jogo excessivamente conservador (ainda que vencedor).

Quando a bola rola, a sensação é que o técnico conduz as atividades tentando fazer todos atletas se sentirem importantes. Também ganha confiança com o conhecimento que mostra em treinamentos e jogos. Mas isso não quer dizer que ele seja unanimidade em todos os sentidos.

Meu amigo campo magnético

Um aspecto específico desse jeitão detalhista do técnico que desperta a atenção dos atletas corintianos é que, antes de executar os treinamentos no gramado, Tiago Nunes gosta de explicar o que será treinado no campo magnético. É um dos seus recursos preferidos para passar instruções ao elenco, explicando tanto movimentações específicas como conceitos táticos em geral para seus comandados.

O técnico não hesita, inclusive, em fazer esse trabalho em sessões individuais com os jogadores. É muito comum ver, até em treinos abertos aos jornalistas, o técnico de canto explicando suas táticas para algum atleta na sua grande prancheta.

O bom chato? Ou um lado general?

Tiago Nunes chegou ao Corinthians com moral. Espera que sua influência não se limite ao que acontece entre quatro linhas. O treinador gosta da ideia de organizar o departamento de futebol do clube e constantemente cobra profissionalismo em todos os setores. Internamente, por profissionais que conhecem sua rotina no CT Joaquim Grava, ele já foi chamado de “bom chato”, pois suas cobranças, segundo os dirigentes, colaboram para a evolução de todos no futebol do clube paulista.

O treinador já foi até comparado internamente com Mano Menezes por priorizar a ordem e disciplina no clube. Ele não estipula apenas os horários de refeições. O término só é definido com a autorização de um líder do elenco: Cássio, Gil, Fagner e Vagner Love. Também limitou a presença de familiares no vestiário. E realiza treinos em dias de jogo. A maioria do elenco apoia o treinador neste caso, mas o goleiro Cássio não nega que alguém possa estranhar essa “cartilha” — ou simplesmente não gostar dela. Já a cúpula corintiana, segundo apurou o UOL Esporte, alega que grande parte das regras já existia antes da chegada do técnico.

Para quem conhece Nunes de longa data, essa repercussão não é novidade. Embora aparente um semblante calmo, o técnico não foge da característica de diversos outros técnicos do Rio Grande do Sul e é citado como disciplinador por quem trabalhou com ele ao longo da carreira.

Maico Gaúcho foi um dos jogadores comandados por Nunes durante sua passagem pelo Luverdense e lembra bem da disciplina que era imposta pelo atual comandante do Athletico. “Sempre foi um cara muito centrado, muito rígido várias vezes. O perfil dele, na verdade, era estilo quartel. Ele é firme demais, mas também muito transparente, honesto”, afirma o ex-atacante.

Veja a matéria completa: https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/tiago-nunes-futebol-e-resistir/index.htm#tematico-9

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