Abandonada, casa de Chico Mendes se deteriora; memória de líder seringueiro é ameaçada

Por Fábio Pontes

Na terra natal do líder seringueiro Chico Mendes, não é só a reserva extrativista que leva seu nome que está ameaçada pelo desmatamento ocasionado pelo avanço da agropecuária e por projetos de leis apresentados pela bancada da motosserra que visam beneficiar o grupo formado pelos maiores desmatadores da unidade. Com o governo Gladson Cameli (PP), a própria História do acreano mais famoso no Brasil e no mundo está em risco.

Desde que assumiu os rumos políticos do estado em janeiro do ano passado, o atual grupo de partidos tenta destruir tudo aquilo que esteja ligado à preservação da Amazônia e à proteção de suas populações tradicionais. Para eles, tudo isso não passa de coisa de petista. Ainda na visão deles, desprezar estas duas áreas é também uma forma de sepultar a memória de duas décadas de governos do PT no Acre.

Essa visão estúpida tem se mostrado desastrosa e custado muito caro para o Acre. Em 2019 tivemos o maior registro de desmatamento dos últimos 11 anos – e um dos maiores em queimadas. Com perdão do trocadilho, mas nunca antes nossa imagem lá fora esteve tão queimada como agora. O Acre que servia de exemplo em políticas de proteção da floresta, agora supera o Mato Grosso em devastação.

Além de pouco fazer para a manutenção da floresta em pé, o governo Gladson Cameli contribui para deixar em último plano a história de vida de uma das pessoas que mais lutaram pela defesa deste patrimônio, que foi Chico Mendes. Desde janeiro do ano passado, a casa de Chico Mendes, em Xapuri, transformada em museu para receber visitantes de todas as partes do mundo, está fechada.

A gestão estadual decidiu não renovar o contrato que permitia a locação do imóvel pelo governo. O valor do aluguel era repassado para a família de Chico Mendes. Ainda no ano passado procurei o governo para saber se havia a perspectiva de o museu ser reaberto. Informaram-me de que negociações seriam feitas para tal. Quase dois anos depois, a situação é a mesma.

Semanas atrás estive em Xapuri. A casa permanece fechada, deteriorando-se com a ação do tempo, do sol e da chuva. Os fios de energia que a ligavam ao poste agora estão pendurados na cerca. Sem o pagamento das faturas se acumulam na cerca, a empresa cortou o fornecimento. Para quem já viu e visitou a casa de Chico no auge de seu funcionamento enquanto museu, é desolador se deparar com ela em tal situação.

O fechamento do imóvel não representa um ataque apenas à memória de Chico Mendes, mas também ao seu legado de lutas que fez o Acre ser conhecido internacionalmente e também o município de Xapuri. A história do filho mais ilustre da cidade a faz (ou fazia) receber dezenas – talvez centenas – de turistas todos os anos, movimentando a economia local. Restaurantes e hospedarias de Xapuri dependem diretamente deste fluxo de turistas em busca de conhecer melhor a vida de Chico Mendes; com a casa fechada, o movimento é zero.

Outro retrato do desprezo pela região onde nasceu e viveu Chico Mendes é a pousada Cachoeira, no Seringal Cachoeira, onde ocorreram os últimos empates liderados por ele. Abandonada, a pousada vai se deteriorando dentro de uma área de floresta. Uma outra tristeza para quem já viu o apogeu daquele empreendimento.

O governo pode alegar que a pandemia levou ao fechamento de ambos os lugares. No caso da pousada até pode ser, mas a casa de Chico Mendes está jogada às traças por pura omissão desde o começo do ano passado. Repetindo: este é um ataque não apenas à memória do líder seringueiro, mas à toda história do Acre e de Xapuri.

Que Gladson Cameli possa rever seus conceitos de governança e pense mais como um estadista. É isso o que o Acre merece.

Acesse o blog.

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto:
Close Bitnami banner
Bitnami