A UFAC e as eleições para Reitor: Qual a visão de universidade para os próximos 4 anos?

Por Francisco O. D. Veloso*

A eleição para a Reitoria da UFAC acontecerá no dia 18 de maio e temos apenas uma chapa inscrita para o pleito. Os atuais incumbentes concorrem à reeleição de forma atípica, por não ter concorrência, talvez uma das consequências da pandemia. Sem o convívio presencial, articulações políticas foram adiadas, pois a prioridade era manter-se vivo e são.

A eleição em uma universidade não é só uma disputa por um cargo administrativo. É (ou deve ser) uma disputa por um projeto de universidade. A ausência de uma segunda chapa acabou por provocar uma ausência de debates, de discussões que eventualmente provocariam um avanço na discussão sobre esta visão a ser implementada pelos próximos quatro anos.

Talvez pela falta de concorrência, até agora, vi apenas duas propostas, dois memes de eleição circulando em redes sociais.

A primeira foi enviada por um colega, e propõe a implementação de ticket virtual para o RU. Tive dificuldade em ver isso como uma proposta que é parte de um projeto de visão de universidade e foi o que me motivou a escrever esse texto e dividir algumas ideias.

Voltando à proposta, ela nada mais é do que uma mudança de um procedimento administrativo de rotina. Serviços estão migrando para plataformas digitais, porque assim caminha a humanidade: para o digital. A pandemia só deu um grande empurrão nesse processo.

A segunda refere-se à “implantação do Programa de Apoio ao Recém Doutor”. Mas é só esta a informação que cabe em um meme, e ficamos sem saber do restante.

Numa campanha espera-se que as informações circulem, que a comunidade seja chamada para apresentar e discutir os problemas. Não creio que seja uma boa ideia contar com redes sociais para ter alguma discussão aprofundada sobre a universidade, porque elas não foram feitas para isso. Além do que não somos obrigados a usá-las, incluindo programas de mensagem instantânea como WhatsApp, Telegrama, Signal, etc.

Notei que a campanha possui um, #étempodecontinuar, e isso me imaginar o que exatamente significa, e exatamente o que vai continuar. Resolvi fazer um pouco de pesquisa.

Uma das coisas que aprendi, durante meus anos de trabalho no exterior, foi utilizar sistemas de avaliação de universidades. Parcerias em nível acadêmico institucional, principalmente na Ásia, costumam considerar posições em sistemas de avaliação (ou rankings) de universidades. Os rankings mais importantes atualmente são: o THE (Times Higher Education), QS(Quacquarelli Symonds) e ARWU (ranking de Shanghai).

No Brasil, o jornal Folha de São Paulo tem produzido o Ranking Universitário Folha (RUF). Sua metodologia é bem explicada, e parte do processo baseia-se no THE (Times Higher Education), QS (Quacquarelli Symonds) e ARWU (ranking de Shanghai), com adaptações para o contexto acadêmico brasileiro. Consideram, por exemplo, notas do ENAD no processo de avaliação das instituições de ensino superior no parâmetroEnsino. Os outros parâmetros que constam no RUF são: pesquisa (utilizam informações da Capes), mercado (empregabilidade), internacionalização e inovação, semelhante aos três sistemas citados anteriormente.

No Ranking Universitário Folha (RUF), selecionei e organizei as informações de dois índices: a posição geral da UFAC e a avaliação no parâmetro em Ensino, informações podem ser acessadas no link https://ruf.folha.uol.com.br/todas-as-edicoes/, onde estão disponíveis os dados desde o ano de 2012 até 2019. Cada ano possui uma página dedicada e o processo de amadurecimento no detalhamento e disponibilização das informações é notável.

Os resultados dispostos no Gráfico 1 mostram que, em 2012, a UFAC ocupava 76º lugar no ranking geral de universidades, e em 2019 repete a posição de 2018, no 140º lugar, ou seja, despencou praticamente 100% no ranking desde que o RUF começou a ser publicado.

Gráfico 1: Posição geral e Ensino no Ranking Universitário Folha 2012-2019.

Sobre a disposição dos resultados no gráfico acima, pontuo brevemente algumas observações. Primeira, o desempenho geral da UFAC em um ou mais parâmetros de avaliação do Ensinopodem ter tido resultados muito abaixo do esperado ao longo do período de avaliação e isso contamina o resultado geral. Segunda, a instituição pode ter tido dificuldade no processo de coleta e envio de dados que servem como base para avaliação. Um dos parâmetros, a pesquisa, por exemplo, depende que os pesquisadores mantenham o currículo Lattes atualizado. Terceira, modificações na metodologia do RUF como, por exemplo, o acréscimo de novas instituições com melhor desempenho pode ter contribuído para a curva descendente.

Seria necessário mais tempo e uma equipe para compreender em detalhes os resultados mostrados no Gráfico 1. Busquei, no entanto, trabalhar um pouco mais com parâmetros mencionados anteriormente, retomando-o: o de Ensino, que é representado no Gráfico 1 com a cor laranja. Este apresenta também uma curva descendente semelhante no período. Os anos de 2014 e 2015 precisariam ser analisados com mais atenção, pois os resultados são os mais baixos do período. No ano de 2015, a UFAC subiu algumas posições, mas retornamos à tendência de queda a partir de 2016.

A partir do parâmetro Ensino, selecionei o curso de Letras, por ser minha área de atuação, para verificar sua performance.

A performance do curso de Letras, com dados disponíveis a partir de 2013, refletem o padrão descendente, mas com oscilações. Nos anos de 2017 e 2018, o curso teve uma avaliação muito abaixo do esperado, e, portanto, agrupado no primeiro bloco de 50. O Ranking Universitário Folha (RUF) utiliza o mesmo método de classificação que o QS, por exemplo. A partir da posição 200, as instituições (posição geral ou parâmetros) são classificadas dentro de grupos de 50 instituições.

Como existe apenas o curso de Letras e cada língua é uma especialização específica, a posição no ranking é determinado pela soma da performance das diferentes especializações oferecidas pela UFAC: Letras Português, Francês, Espanhol, Libras e Inglês. Deve-se considerar, ainda, que os dados computados pelo RUF incluam resultados obtidos em cursos de graduação oferecidos em programas de interiorização.

Seria necessário que a UFAC, com uma equipe, fizesse aidentificação dos critérios de avaliação do RUF e resultados que pudessem informar a construção de um plano de trabalho para melhorar os índices insatisfatórios no curso de Letras. Mais do que um sistema de classificação, o RUF pode ser utilizado como um indicador para a identificação de problemas que irão informar estratégias de trabalho para melhorar índices como, por exemplo, do parâmetro Mercado – disso tratarei em uma próxima matéria.

O desempenho do curso de Letras no RUF, como descrito acima, eclipsa casos de sucesso como a Medicina Veterinária. O curso de graduação foi implementado poucos anos atrás e exibiu, desde o início, performance muito superior no parâmetro Ensino, conforme mostrado no Gráfico 1. Ainda, a Medicina Veterinária, em pouco tempo de existência, já possui um programa de pós-graduação em nível de Mestrado e Doutorado.Como repetir esta fórmula de sucesso?

Em momento socialmente conturbado, a chapa única deve pensar que, mesmo sem concorrência, ainda existe a possibilidade de votar Não – anulando o voto ou ignorando a eleição, o que tem sido fácil com a apatia geral. Isso teria consequências de legitimidade e aprovação. A Reitoria, ao buscar a reeleição, com chapa única, submete-se a um plebiscito.

Não estou sugerindo que utilizemos o RUF especificamente, apenas o utilizo para ilustrar que existem índices disponíveis que podem orientar na identificação de problemas e que um projeto de universidade para os próximos quatro anos deve ser baseado em dados.

Se existe um projeto é necessário dar amplo conhecimento,enviá-lo via e-mail institucional, ter canais de comunicação que não sejam redes sociais (pois não são canais oficiais), chamar as Assembleias de Centro e ouvir, conversar, explicar o que se pretende executar.

Uma candidatura única deve ser, mais do que nunca, inclusiva. Precisamos construir unidade e o que se precisa neste momento, mais do que nunca, é liderança, uma visão clara da universidade que queremos e que a população do Estado do Acre necessita.

*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).

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