Sou historiador com muito orgulho

Sou historiador com muito orgulho

Por Carioca Nepomuceno*

“A utopia está lá no horizonte. Para que serve a utopia?…Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Eduardo Galeano

A reflexão que faço nesse dia do historiador remete para os inúmeros desafios que esse ofício descortina para quem o abraça.

Ler, escrever, pesquisar, interpretar, formar, transformar. São múltiplas as tarefas que recaem sobre os ombros de quem escolheu uma atividade tão distante de remunerar adequadamente os que a praticam, mas tão próximo de proporcionar uma visão arguta da realidade social em qualquer tempo ou lugar.

A responsabilidade aumenta quando nos deparamos com a sala de aula repleta de jovens sonhadores, na sua grande maioria de classe média baixa, muitos, desejosos de fazer cursos que proporcionariam maior rentabilidade no mercado de trabalho para ajudar a família, no entanto, as condições da escola pública, de onde a maioria vem, não permitiu voos tão altos.

Vale dizer que esse jovem, passa a ser, em larga medida, a referência intelectual da família por ser na maioria das vezes, o primeiro (a) a entrar numa faculdade. O que aumenta o seu compromisso e dobra o do professor.

Para ser um bom historiador, acho eu, algumas condições se impõem como necessárias.

Aleatoriamente vou dialogar com algumas que, a meu juízo, podem fazer a diferença.

Vivemos num dos países mais desiguais do planeta. É tarefa do historiador traduzir para as novas gerações e para a sociedade porque o Brasil é assim. Essa interpretação, para além do diagnóstico, nos induz a assumir um lado. Como diria Dom Mauro Morelli: o lado dos que não tem, dos que não sabem e dos que não podem.

Nunca foi tão atual a undécima tese de Marx sobre Feuerbach: não basta o historiador interpretar o mundo, é preciso colaborar com sua transformação.

Para isso, o envolvimento pessoal com alguma causa com a qual ele se identifique é fundamental. Ler e interpretar já é de grande valia, mas para ser sujeito de verdade o historiador deve lutar para escrever uma outra história, de propósitos mais nobres para a humanidade. Uma história que orgulhe seus filhos e as próximas gerações.

Ao longo de minha formação no curso de História ouvi muito na sala de aula, nos corredores e nos debates dos quais participei a palavra utopia. A palavra que mais ouço no presente é distopia, um termo que faz aflorar o ceticismo sobretudo em quem não tem causa.

Pobre de direita, intelectuais simpatizantes do fascismo, mulheres machistas, negros encantados com o mundo de quem historicamente o oprimiu.

A lista das contradições é interminável. Num país em que sua elite renunciou a um projeto de soberania, em que o presidente bate continência para a bandeira americana e diz I love you para provar sua subalternidade, ao historiador, diante de realidade tão hostil, não cabe o silêncio obsequioso dos covardes.

A manipulação a que a sociedade brasileira é submetida pelas corporações midiáticas não tem paralelo no mundo.

No período recente o povo brasileiro presenciou o bombardeio iniciado em 2013, passando pelo golpe de 2016, até a eleição do pária que está na presidência em 2018.

Após 4 derrotas consecutivas a elite utilizou o mesmo expediente de 1954 contra Vargas e em 1964 contra Goulart: a corrupção, para depor a esquerda.

Na narrativa escolhida a política foi impiedosamente satanizada, a eficácia chegou a tal ponto de vermos pobres sendo a favor da privatização, do teto de gastos (que impede por 20 anos investimentos públicos em educação e saúde) e de que política é coisa para quem tem dinheiro por que não vai roubar.

Na minha militância política vi, ouvi e protagonizei muita coisa que marcaram minha vida. Com base nessa experiência, parodiando o revolucionário russo, o que fazer? No meu entendimento, aos intelectuais, sobretudo ao historiador, você que já tatuou a história no seu coração e sonha em ser um historiador acima da média: nossa tarefa é lutar para tirar o rico que tem dentro de cada pobre.

Entenda essa expressão na sua plenitude. Pobre também é aquele que, apesar da renda, reproduz o conjunto de pensamento da classe dominante e não percebe que ele nunca será um deles. “Não espere do futuro um porto seguro, onde os homens finalmente libertos abrirão mão do risco de navegar”. Viva aos historiadores!!!

*Carioca Nepomuceno é professor de História na UFAC.

Leonildo Rosas

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