Não é a porra do minério

Por Leandro Altheman

Diante da incontinência verbal do presidente, às vezes o melhor a fazer é ficar calado. Tanto para preservar a saúde mental quanto para não dar Ibope para sua estupidez. Já tinha me decidido de não comentar nada sobre a sua última ‘porra da árvore”, e se saio da minha abstinência é apenas porque às vezes me sinto na obrigação de pelo menos oferecer uma outra perspectiva para as pessoas que me seguem e para quem talvez uma palavra diferente ajude a perceber que ainda existe alguma lucidez no mundo.

O caso me fez lembrar de uma cena no filme Avatar, em que a personagem interpretada por Sigourney Weaver tenta explicar ao chefe da operação de mineração que a maior riqueza de Pandora, o planeta alienígena em que estão e que serve de metáfora para a Amazônia, não é o minério, mas sim a sua biodiversidade e que as conexões entre as árvores de Pandora são mais numerosas de que um cérebro humano.

  • Mas o que foi que vocês fumaram? Pergunta o chefe da operação.

O exemplo tirado de um filme de ficção pode ser bobo, pueril até, mas em alguma medida reflete a dificuldade que pesquisadores da Amazônia têm em demonstrar a que importância do que está sob a superfície é maior do que o que está no subsolo.

Se biólogos se ocupam em conhecer as relações entre fauna e flora, a antropologia se dedica em conhecer as relações humanas e com essa mesma biodiversidade.

Não há erro em atribuir ao subsolo um valor estratégico ao país. Mas isso precisa ser mensurado de forma realista. Nenhum país do mundo se tornou potência apenas explorando recursos primários.

O erro está em não reconhecer o valor do que está na superfície. Mais uma vez: uma biodiversidade ainda não conhecida completamente pela ciência acadêmica e povos que a conhecem e utilizam com maestria.

O próprio valor da vida deveria ser suficiente para convencer pessoas que, como o personagem do filme Avatar, enxergam apenas valor no seu minério. Diferente do filme, não iremos para outro planeta depois de acabar com esse. Os territórios a serem explorados fazem parte do mesmo território desse imenso país que ainda não despertou de sua condição de colônia.

Mas, na falta de sensibilidade para com a vida, ainda podemos evocar o valor estratégico representado pela biodiversidade e pela diversidade de povos que habitam a Amazônia. Eleger como inimigos do desenvolvimento do país, justamente aquilo que temos de mais valioso, só pode ser resultado de um pensamento adormecido de um país que ainda não foi capaz de reconhecer o seu lugar no mundo.

* Leandro Altheman é jornalista.

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