MÉDICA BLOGUEIRA ATUA NA LINHA DE FRENTE DO COMBATE AO CORONAVÍRUS NO ACRE

MÉDICA BLOGUEIRA ATUA NA LINHA DE FRENTE DO COMBATE AO CORONAVÍRUS NO ACRE

Taisy Ricon, de 24 anos, que costumava postar conteúdos sobre maquiagens e roupas, passou a publicar relatos emocionantes sobre o trabalho no Norte do país

Por Filipe Vidon

Revista Época


Taisy Ricon, de 24 anos, se formou em Medicina em novembro de 2019, em Brasília. A jovem começou a vida profissional em uma clínica de Anápolis, em Goiás, e paralelamente produzia conteúdo de moda em uma rede social. Pouco tempo depois, o perfil com 170 mil seguidores que acompanhavam dicas de maquiagens e roupas foi tomado por relatos e desabafos da moça, que passou a atuar na linha de frente do combate ao coronavírus, em um hospital no Acre.

A jovem começou a se dedicar ao tratamento de pacientes com a Covid-19 ainda em Goiás, no dia 28 de março, trabalhando no Hospital de Campanha montado na capital. Nesse momento, os planos de fazer intercâmbio e produzir conteúdo “instagramável” no exterior já tinham ficado para trás e todos os esforços se voltaram à Medicina. Com a experiência adquirida, foi convidada para o trabalho no Acre, onde a situação era muito pior.

“Lá o número de casos era muito maior, beirando os 100 óbitos na época em que me ofereceram a vaga. Fiquei muito tensa com esse desafio, mas uma colega que já estava lá me incentivou e topei trabalhar em Rio Branco por 15 dias. Quando cheguei, vi que era impossível fazer alguma coisa nesse curto período. A realidade era muito mais dura, não tenho palavras para descrever o que as pessoas passam”, contou.

A unidade de saúde em que Taisy ia trabalhar ainda não estava pronta, mas ela já atendia pacientes com coronavírus no Hospital Regional de Rio Branco. Com cada vez mais casos na região, ela aceitou a proposta de coordenar por seis meses 40 leitos de enfermaria do Instituto de Traumatologia e Ortopedia no Acre (Into-AC), que agora se dedica ao tratamento de pacientes com o vírus.

“Nunca na minha vida imaginava passar por isso, não só a pandemia mas também o trabalho aqui no Acre. Pegar uma coordenação nesse momento é duro, mas precisavam da gente para isso. Vivo cenas de filme de terror aqui, que nunca vou esquecer. Trabalhar com a Covid torna a jornada de trabalho muito mais pesada, o tempo inteiro pensando em não se contaminar, em ajudar todos que estão ali. Não há tempo para raciocinar, são todos os dias lidando com pacientes em estado grave e tudo pode mudar a qualquer segundo”, diz a médica.

Taisy conta que um dos momentos mais tensos foi quando a energia do hospital acabou, e o gerador instalado no local não funcionou. Com a bateria dos respiradores chegando ao fim, ela conta que foi preciso transferir pacientes para uma UTI onde ainda havia eletricidade, mas mover cada um seguindo todos os protocolos de segurança demorava mais de dez minutos.

Dos 24 pacientes que Taisy cuidava, 23 sobreviveram às duas horas de apagão. Uma mulher não resistiu apenas com a respiração manual, que fornece menos pressão do que a máquina. Apesar de confirmar que o gerador não funcionou, e que a morte ocorreu exatamente durante a falta de energia, o governo não explica o motivo de um equipamento essencial para a vida de pacientes em uma unidade de saúde não ter funcionado.

Taisy afirma que a experiência no Acre a fez desacreditar no trabalho como blogueira de moda que vinha fazendo e por isso começou a postar relatos do que vivia no Norte do país. Com o retorno positivo dos seguidores, ela já sabe que não quer seguir o mesmo caminho e pretende usar a plataforma para continuar inspirando mulheres e para mostrar uma versão da Medicina mais humanizada.

Em nota, o governo do estado do Acre, por meio da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) e da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra), informou que a pane na energia elétrica do Into-AC, na noite do dia 21 de maio, foi causada por um animal que atingiu a linha de transmissão.

“A Seinfra informa que os aparelhos que mantêm os pacientes estabilizados possuem baterias que asseguram o seu funcionamento até o retorno da normalidade, mas que elas se esgotaram para alguns internados, fazendo com que os profissionais utilizassem ventilação manual nestes. Foi durante um desses procedimentos que uma paciente, já bastante debilitada, veio a óbito. A Sesacre ressalta que não houve interrupção no fornecimento de oxigênio e outros gases medicinais, porque o sistema tem cilindros reservas”, alegou o governo.

Leonildo Rosas

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