Educação pública no Acre durante a pandemia

Educação pública no Acre durante a pandemia

Por Daniel Zen*

Após consultar pais e professores que atuam nas escolas da rede pública estadual de Educação Básica, percebemos que é completo e generalizado o atrapalho da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (SEE) em adotar e usar uma ferramenta padronizada de Educação à Distância (EaD), com seu respectivo Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), nesse momento de pandemia.

Já se passaram 72 dias desde que as aulas presenciais foram suspensas e, até agora, a SEE não conseguiu adotar uma plataforma digital unificada de ensino à distância para uso por suas escolas, professores e alunos. Muito comuns no ensino superior há vários anos, é plenamente necessário – e possível – adaptar tais tecnologias para a Educação Básica.

Desde o início da pandemia que a equipe da SEE aparenta estar muito perdida. Solicitaram que as escolas adotassem medidas de tutoria à distância, mas, não deram orientações claras para tal. Depois que estas já estavam a realizar algumas providências, por sua conta e risco, pediram a elaboração de um plano de ação de cada unidade escolar e, com base nestes, formularam uma proposta, que incluía o uso das ferramentas digitais Google Class e Zoom. Disseram que iriam disponibilizar vídeo-aulas, mas, o único material disponibilizado até aqui é, segundo relatos, desnorteado e fraco.

A produção de conteúdo, elaboração de atividades e respectivo envio aos alunos têm contado com a dedicação, vanguarda e até o improviso das equipes escolares. Em verdade, isso tem ficado ao encargo quase que exclusivo de coordenadores pedagógicos e professores de cada escola. Eles têm usado o Whatsapp, o telefone e todas as ferramentas de que dispõem. Mas, não tem sido suficiente para atingir a maior parte dos alunos.

Segundo relato de professores, a adesão dos alunos às soluções até aqui adotadas tem sido baixa. Em média, de 35% a 40% apenas. A maioria dos pais alega que dispõem de apenas 1 telefone celular para 3 a 4 filhos. A maioria dos alunos acaba saindo dos grupos. Afora isso, nem todos tem acesso a internet, onde possam baixar arquivos. E, dentre os que dispõem de acesso, ele não é adequado: a limitação do pacote de dados e a instabilidade do sinal acabam por se tornar empecilhos para a plena satisfação das necessidades dos alunos.

Na realidade, nua e crua, o que temos são professores enviando algumas atividades para serem feitas, por Whatsapp, com baixa adesão dos alunos, sem aulas online, plataforma virtual ou projeto da secretaria. Trabalho sem coordenação central da SEE, no melhor estilo cada um por si.

Mesmo nas poucas escolas onde tal voluntarismo heróico têm dado certo, o que se vê são aulas sem orientação para os alunos, uma enxurrada de exercícios, conteúdos novos sem indicação de link, vídeos ou material complementar de suporte e, o pior: a tentativa de que tudo seja contabilizado como carga horária sem que a aprendizagem de fato ocorra.

Com baixo índice de alcance, dificilmente o Conselho Estadual de Educação (CEE) vai validar tais tarefas como hora-atividade, para efeito de cômputo das mesmas como parte da carga horária total do ano letivo.

O governo precisa resolver o problema de disponibilização de plataforma digital confiável, com mediação adequada de aprendizagem por ambiente virtual. Mais do que isso, tem de assegurar condições para que todos os alunos possam acessá-la, disponibilizando chips com pacotes de dados pré-pagos, dentre outras alternativas.

Não permitamos que nossas crianças sejam vítimas de mecanismo excludentes e que reduzam a qualidade do ensino. Não podemos depender apenas do voluntarismo dos professores. Faz-se necessária uma ação coordenada do governo que, nessa pandemia, parece apenas bater cabeça: tem sido bom na teoria, ao decretar medidas que, na prática, não estão sendo cumpridas.

*Daniel Zen é deputado estadual (PT/AC), mestre em Direito e professor licenciado da Universidade Federal do Acre (Ufac)

Leonildo Rosas

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