Coronavírus avança e coloca em risco comunidades indígenas do Alto Purus

Coronavírus avança e coloca em risco comunidades indígenas do Alto Purus

Entre as populações mais ameaçadas estão os Madijá, historicamente já vulnerável pela dieta alimentar pobre, o que reduz a imunidade

Por Fábio Pontes

Indígena Huni Kuin de 84 anos morreu no último domingo dentro da embarcação enquanto ia para a cidade; apesar de todos os sintomas da Covid-19, foi diagnosticado com pneumonia pela Sesai

À medida que os casos da Covid-19 aumentam no Acre, a população indígena do estado – que há até bem pouco tempo estava protegida dentro das aldeias -, começa a sentir os impactos da pandemia no interior de seus territórios. Neste cenário, as terras indígenas sob responsabilidade do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Rio Purus se apresentam como as mais vulneráveis para a propagação do novo coronavírus, cujos efeitos podem ser devastadores. 

No último domingo, 14, um idoso Huni Kuin de 84 anos morreu dentro de uma embarcação 50 minutos antes de chegar à cidade de Santa Rosa do Purus. Mesmo apresentando todos os sintomas da Covid-19, ele foi tratado como se estivesse acometido por pneumonia pela equipe de saúde do Dsei, cujo teste rápido feito na aldeia deu negativo para Covid-19.  

Durante as quase duas semanas em que ficou na aldeia, o idoso recebeu a visita de vários parentes de diferentes aldeias da Terra Indígena do Alto Rio Purus, o que pode ter espalhado ainda mais o vírus. Já há relatos de pessoas apresentando sintomas da Covid-19, mas que são diagnosticadas com pneumonia, levando a tratamentos inadequados, ou retardando a transferência do paciente para o hospital de Santa Rosa do Purus. No momento só há um médico para atender as 46 aldeias; uma outra profissional foi colocada em isolamento após apresentar sintomas.    

Foi por conta de um falso resultado negativo que um bebê Huni Kuin de seis meses também morreu em maio. Ele foi classificado como portador de pneumonia. Com a piora no estado de saúde se agravar foi levado para o hospital da cidade e depois para Rio Branco, onde não resistiu e morreu. O teste feito na capital deu positivo para Covid-19, mas sua certidão de óbito saiu como causa-morte pneumonia. 

De acordo com dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o Dsei Alto Purus é o que registra o maior número de casos confirmados e de mortes por Covid-19 no Acre: já são 71 infectados e três óbitos. O Dsei Alto Juruá tem 12 testados positivos e nenhuma morte. O atendimento de Saúde indígena no Acre está dividido entre estes dois distritos sanitários. 

A região do estado que se apresenta como de maior risco para o avanço da doença é a do município de Santa Rosa do Purus, precisamente a Terra Indígena do Alto Rio Purus. A terra é habitada por três diferentes povos: Huni Kuin (Kaxinawá), Madijá (Kulina) e os Jaminawa.  

“O número de profissionais que a gente tem pela Sesai não é suficiente para atender toda a demanda indígena. Nós temos 46 aldeias. Nós temos mais de quatro mil indígenas aldeados. Todas ou quase todas as aldeias eu tenho recebido relatos de lideranças dizendo que aldeia fulano, fulano e fulano está apresentando sintomas de dor de cabeça, gripe, tosse, febre, dor pelo corpo e falta de paladar. Então, pelas orientações são sintomas para Covid. E ninguém pode descartar nesta época a possibilidade de ser Covid”, diz o vice-prefeito de Santa Rosa do Purus, Nego Kaxinawa (DEM). Ele é sobrinho do senhor Huni Kuin morto no domingo.

A maior incidência da Covid-19 em Santa Rosa do Purus está entre os Huni Kuin, onde houve o primeiro registro. De acordo com Nego Kaxinawa, quase 100% dos indígenas moradores da cidade foram infectados pelo novo coronavírus. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município tem uma população estimada de 6.540 pessoas, sendo que mais de 4.000 são indígenas. 

Segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre), o município tem 79 casos confirmados da Covid-19. Já os dados da Secretaria Municipal de Saúde apontam 84 infectados, sendo 69 indígenas. Os dados do Dsei Alto Rio Purus se referem a notificações de todos os municípios de sua abrangência. 

Porém, vale ressaltar que a Sesai não leva em consideração no monitoramento os indígenas moradores das cidades, apenas das aldeias, chamados de aldeados. Portanto, os dados podem ser definidos como de subnotificação já que não leva em conta toda a população indígena do país, pois muitos deles são moradores das cidades.

O Dsei Alto Rio Purus é responsável por levar atendimento médico às comunidades indígenas cujas terras demarcadas estão sob influência da Bacia do Purus, atendendo municípios do leste do Acre, parte do sul do Amazonas (Boca do Acre e Pauini) e noroeste de Rondônia (TI Kaxarari). No Acre os municípios abrangidos são: Manoel Urbano, Santa Rosa do Purus, Sena Madureira, Rio Branco e Assis Brasil. 

Ao todo o Dsei atende uma área de 134 mil quilômetros quadrados, com uma população de 12,5 mil pessoas, de sete diferentes etnias. Já o Dsei Alto Rio Juruá atende apenas municípios acreanos numa área de quase 70 mil quilômetros quadrados. Apesar de menos extensa, o número de pessoas (18 mil) e povos (17) é maior. 

Desde maio do ano passado o Dsei Alto Rio Purus é coordenado por Carla Mioto Niciani, indicada para o cargo pelo deputado federal bolsonarista Alan Rick (DEM-AC). A indicação dela fez parte das negociações políticas feitas pelo parlamentar democrata para assegurar sua lealdade ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) na Câmara dos Deputados.  

De acordo com Alan Rick, a indicação de Carla teve a benção do presidente da República (leia abaixo). A própria coordenadora do Dsei se apresenta como uma entusiasta de Jair Bolsonaro em suas redes sociais. Desde a campanha de 2018, Bolsonaro defende uma agenda anti-indígena como não realizar novas demarcações de territórios tradicionais, além de apoiar a legalização da mineração nas já homologadas, cujos efeitos socioambientais são devastadores.       

Este velho fisiologismo do toma lá dá cá da política brasileira – que colocou no balcão de negociação a saúde dos povos indígenas – parece agora cobrar as consequências. As reclamações  sobre a precariedade dos serviços de atendimento médico básico aos indígenas na ponta são constantes – isso quando ocorre. 

“Eu quero viver mais” 

A reportagem teve acesso a um áudio de WhatsApp gravado no dia 6 de junho por uma Huni Kuin que retrata bem a situação de desassistência nas aldeias do Alto Purus. Ela se apresenta como Maria de Fátima Kaxinawa, de 60 anos, moradora da aldeia da Nova Fronteira. “Tá tendo uma doença que tá atingindo todo mundo e essa doença pessoal tão sentindo dor de cabeça, é febre, dor no corpo e tem muitas aldeia que já tá tendo morte”, afirma ela. 

Maria de Fátima Kaxinawa relata que seus netos de quatro e dois anos tiveram febre na noite anterior à gravação do áudio. “Nós não temos atendimento, e nós precisamos. Nós precisamos de um atendimento mais adequado para nós porque nós estamos sofrendo aqui. Eu sou uma índia, eu sou de idade e estou preocupada com minha saúde. Eu quero viver mais.” 

Ela ainda relata a morte de um “parente” no último dia quatro deste mês, e reclama dos testes que só apresentam resultados negativos quando há o sintoma da Covid-19. “O pessoal diz que faz teste, é negativo. O pessoal não quer falar a verdade para a gente que é essa doença que tá matando, diz que morreu de pressão”,    informa a senhora.  

Os primeiros casos de contaminação nas aldeias da TI Alto Rio Purus ocorreram pela entrada de uma enfermeira Huni Kuin do Dsei que já era portadora do vírus. Ela não teria seguido as recomendações para cumprir a quarentena antes de ir a campo. Outros problema observado desde o início do surto foi não deixar em isolamento nem testar os indígenas que estavam em viagem para Rio Branco ou fora do Acre. Ao regressar, voltavam direto para o convívio com os parentes. 

Foi desta forma que ocorreu a contaminação entre os indígenas da cidade. Um jovem Huni Kuin morador da capital voltou para Santa Rosa do Purus infectado. Por ter sido um portador assintomático do vírus, só descobriu que estava com o coronavírus ao fazer o teste no hospital da cidade.Até aí já tinha tido contato com várias pessoas.  Segundo Nego Kaxinawa, quase 100% dos indígenas moradores da cidade foram infectados  

“Nós estamos em tempo de pandemia a situação aqui é grave, é urgente, é emergencial.” Com a quase inércia por parte da direção do Dsei sediada em Rio Branco, o resultado é o avanço da Covid-19 entre as comunidades indígenas, colocando em risco a sobrevivência destas populações. O principal risco é para pessoas que tiveram contato com quem apresenta os sintomas e testaram negativo, mas que são, sim, portadoras do vírus. 

Exemplo disso é o que pode ter ocorrido na aldeia Nova Fortaleza, onde morava o tio de Nego Kaxinawa. “A preocupação que eu tenho é essa. Eu tenho medo de que quase toda a aldeia esteja infectada porque tiveram contato com o paciente, e outras aldeias onde moram os parentes também tiveram contato”, explica ele.

Os Madijá em risco 

Entre os povos que moram na Terra Indígena do Alto Rio Purus, os Madijá (também conhecidos como Kulina) são os mais vulneráveis. O contágio do coronavírus entre as suas 18 aldeias representa uma grave ameaça. Em comparação com os Huni Kuin e os Jaminawa, os Madijá apresentam uma imunidade mais baixa por terem uma dieta alimentar pobre em nutrientes. Entre eles há elevado registro de déficit nutricional, principalmente entre idosos, grávidas e crianças menores de cinco anos, que estão no grupo de risco da Covid-19. 

Um bebê Madijá também morreu no último dia 10 em Rio Branco por desnutrição e pneumonia. Foi feito o teste para Covid-19, mas o resultado ainda não é conhecido. A mãe da criança cumpre isolamento na Casa de Saúde Indígena (Casai) da capital.  

Além disso, os Madijá mantêm pouco contato com o dito “mundo civilizado”, o que reduz sua percepção dos riscos a que estão expostos diante da pandemia. Muitos deles não falam português. Há relatos de idas constantes deles a centros urbanos, incluindo Santo Rosa do Purus e Manoel Urbano. A TI Alto Rio Purus abrange as áreas dos dois municípios. 

Um dos motivos que levam os Madijá e outros povos indígenas da Amazônia a ter que deixar suas aldeias é a necessidade de comprar alimentos nos mercados. Para evitar este deslocamento, a Fundação Nacional do Índio (Funai) prometeu, ainda em março, fornecer cestas básicas para 742 famílias da TI. De acordo com Nego Kaxinawa, até hoje esta ajuda não chegou. 

De acordo com o vice-prefeito, se não houver uma ação conjunta entre município, governo estadual e federal o impacto da Covid-19 entre as comunidades indígenas de Santa Rosa do Purus pode ficar insustentável. “Nós não temos braços nem pernas para caminhar sozinhos. Nós precisamos caminhar em parceria com o estado, o município e principalmente a Sesai e a Funai.” 

O município é um dos mais carentes do Acre em serviços públicos de saúde e infraestrutura. O hospital da cidade tem apenas um cilindro de oxigênio e prestes a acabar.  A Santa Rosa só é possível chegar por barco ou avião. 

“Eu não quero que o meu povo continue morrendo. É triste a gente perder um ente querido. É triste a gente vivenciar uma situação que eu vivenciei, de não ter a oportunidade de velar o meu ente querido. Eu preciso de respostas urgentes da Sesai, da Funai para com essa situação, de testes rápidos, de equipamentos de proteção, de alimentação para dar assistência a essas 46 aldeias que estão aí numa situação precária”, comenta o vice-prefeito Kaxinawa. 

Outro Lado 

Procurada pela reportagem, a coordenadora do Dsei Alto Rio Purus, Carla Mioto Niciani, disse que trabalha para resolver todas as demandas apresentadas pela comunidade indígena de Santa Rosa do Purus. Sobre o excessivo número de testes negativos realizados nas aldeias que depois se mostram positivo nas cidades, Niciani declarou que o Dsei segue todos os padrões recomendados pelo Ministério da Saúde. 

“Acontece, às vezes, de uma falta de precisão dos dados do início de sintomas. Mas isso não tem acontecido com frequência. Infelizmente na situação de ontem [a morte do idoso Huni Kuin] ocorreu o falso negativo. Mas mesmo quando dá negativo orientamos o isolamento até a finalização dos sintomas ou dos 14 dias recomendados”, diz a gestora.

Sobre a carência de profissionais da aldeia, ela afirmou que tem tido problema de parte deles estar afastada em tratamento de saúde por causa da Covid-19, além de encontrar dificuldades em contratar pessoas para atuar em campo. “Infelizmente temos profissionais positivos. E mais infelizmente ainda fizemos processo seletivo e as pessoa não estão demonstrando interesse em serem contratadas”, explica. 

De acordo com Niciani, Santa Rosa do Purus está entre as preocupações centrais do Dsei. Ela afirma que junto a Funai irá até o município para elaborar estratégias de ações. “Em Santa Rosa estamos tentando parcerias para ajudar a prefeitura, e temos muito interesse em termos uma estrutura boa lá. A questão da média e alta complexidade é de responsabilidade do município e do estado. Nossas equipes fazem a parte do atendimento básico e de prevenção dentro das aldeias”, ressalta. 

Também procurado, o deputado Alan Rick confirmou que a gestão do Dsei Alto Rio Purus está sob sua influência política e que o presidente Bolsonaro – ao ungir sua escolhida para a chefia do distrito – exigiu que desenvolvessem uma boa gestão. 

“A bancada federal, deputados e senadores, fez suas indicações ao governo federal, e coube a nós a missão de indicar o distrito sanitário indígena. A Carla tem uma formação, uma capacitação que colaboram para que ela seja uma excelente gestora. Ela é formada em gestão pública com MBA em governança pública”, diz Rick.  

“Para você coordenar uma divisão tão importante como é a questão da saúde indígena aqui no Acre você precisa ter uma pessoa com experiência em gestão, que seja muito capacitada, que saiba dialogar. Ela tem visitado todas as aldeias, busca recursos junto ao governo federal.” 

De acordo com o parlamentar bolsonarista, o Dsei não tinha como impedir a entrada do novo coronavírus nas aldeias. A solução agora, segundo ele, é remediar a situação.  “Os casos que chegaram às aldeias é impossível que o Dsei proíba o vírus de entrar, mas agora tem que remediar, tem que buscar resolver, buscar ajuda, conseguir os recursos necessários.” 

O deputado ainda declarou não fazer interferências na administração do Dsei Alto Rio Purus, deixando a coordenadora à vontade para fazer o trabalho. “Eu não tenho ingerência nenhuma no Dsei. Não tem indicação nenhuma minha no órgão.  A única pessoa lá que nós indicamos foi a Carla.  [E eu disse] Carla, faça um trabalho correto, mostre para o presidente Bolsonaro que exigiu isso da gente”, afirmou.  

A reportagem questionou tanto ao deputado quanto à coordenadora se ela já teve experiências profissionais passadas na gestão da saúde ou com o indigenismo, mas ambos não responderam até o momento. 

A Funai informou, por meio de nota, que tem atuado desde o início da pandemia para reduzir os impactos da pandemia sobre as comunidades indígenas do Acre, atuando por meio de suas duas coordenações regionais: Alto Purus e Alto Juruá. A instituição não tratou de forma específica o caso da TI Alto Rio Purus. 

“As ações destas unidades descentralizadas têm sido no sentido de promover a permanência dos indígenas nas aldeias durante a pandemia de covid-19. Para isso, vêm trabalhando, entre outros, para garantir a segurança alimentar das comunidades em situação de vulnerabilidade social. Já foram entregues pelas duas Coordenações Regionais quase duas mil cestas de alimentos a famílias indígenas do Estado, adquiridas com recursos próprios ou provenientes de doações.”

Segundo a Funai, outras três mil cestas já foram adquiridas para ser distribuídas entre as aldeias dos povos Ashaninka, Huni Kuin (Kaxinawá), Jaminawa, Madija (Kulina), Manchineri e Noke Koi (Katukina).

O Ministério Público Federal no Acre também foi procurado para se manifestar sobre quais medidas vem adotando para garantir que as comunidades indígenas de Santa Rosa do Purus tenham garantido o atendimento de saúde em tempos de pandemia. Até o momento o MPF também não encaminhou as respostas.

Leonildo Rosas

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