Bolsonaro e Moro: o côncavo e o convexo.

Bolsonaro e Moro: o côncavo e o convexo.

Por Carioca Nepomuceno*

Quando foi anunciado com grande alarde a confirmação do futuro ex juiz Sérgio Moro para integrar a heterogênea equipe do governo de Jair Bolsonaro, uma intrigante arca de Noé, a direita comedida viu com certa estranheza esta incômoda união.

Como se tratasse do encontro das paralelas, por serem pessoas de segmentos sociais e perfis distintos, sobretudo em relação a civilidade.

Eu diria que os dois têm mais em comum do que supõe nossa vã filosofia, são, a meu ver, complementares e interdependentes no atual processo político brasileiro. São o Côncavo e o convexo por assim dizer.

A crise do neoliberalismo manifestada pelo esgotamento do processo, que culminou com a hiper concentração de renda jamais vista na vigência do sistema capitalista, teve como consequência a exclusão social e a descrença do povo na democracia representativa do tipo liberal.

O esgarçamento do mundo do trabalho com a perda de direitos historicamente conquistados, a diminuição do emprego e da renda gerou turbulências sociais e políticas em inúmeros países, no Chile e na França no período recente são as mais emblemáticas.

No entanto, o fenômeno político que presenciamos hoje, principalmente no ocidente, vem ocorrendo há cerca de uma década, a ascensão de líderes com inspiração fascista da qual Bolsonaro é o nosso genuíno representante.

Os donos do capital perceberam a dificuldade de eleger seus prepostos no comando dos países ostentando um programa cuja essência revela o epitáfio da classe trabalhadora.

Utilizaram duas modalidades para reter o Estado em suas mãos: uma delas o lawfare, trata-se de fazer uso da justiça para criminalizar adversários políticos no caso em tela, presidentes legitimamente eleitos mas que sejam progressistas ou de esquerda (antineoliberais) como foram os casos de Manuel Zelaya em Honduras, Fernando Lugo, no Paraguai, e Dilma Rousseff, no Brasil.

A outra foi apresentar candidatos marcadamente populistas e messiânicos, que, diante do desespero do povo, personificassem a panaceia para todos os males. Como foram os casos de Trump, nos EUA; Viktor Orbán, na Hungria; Recep Erdogan, na Turquia e Bolsonaro, no Brasil.

Bolsonaro é fruto de duas fraudes sem as quais jamais seria presidente da República, a saber: a inestimável contribuição do deep state (Estado profundo) americano, na pessoa de Steve Bannon (ex estrategista da Casa Branca).

Foi dele o esquema das fake news que já havia logrado êxito na Inglaterra no plebiscito do BREXIT (Saída do Reino Unido da União Européia) e na Eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

A outra foi o lawfare, o ativismo judiciário brasileiro que impediu Lula, o grande favorito para ganhar as eleições de 2018, prendendo-o, atropelando a constituição para ele não participar da disputa, pasmem, sem direito a dar entrevista.

É nessa segunda fraude que começa o enlace de Bolsonaro com Moro e confere sentido do porquê de o ex todo poderoso juiz, laureado mundo a fora com prêmios honoríficos, ter aceito tão imprevidente aventura.

Diferente do que diz o adágio popular “os opostos se atraem”, a psicologia nos ensina que semelhante atrai semelhante, no caso das duas expressões públicas referidas, suas biografias e gestos me autorizam afirmar que pertencem a mesma linhagem.

Ambos podem ser classificados como delinquentes sem exagero, os fatos falam por si.

Sérgio Moro grampeou uma presidenta da República sem autorização judicial, cínico, remeteu o áudio para a emissora de maior audiência do país e, quando questionado, pediu desculpas como se não tivesse cometido nenhum delito; impediu a soltura de Lula não acatando determinação de uma instância superior, mesmo estando de férias, ordenou seu pitbull da PF à época, delegado Valeixo (que também descumpriu a lei), para não cumprir o que determinara o Desembargador Rogério Favreto; mandou grampear (sem autorização judicial) o escritório dos advogados de defesa do ex presidente Lula, informação fartamente divulgada pelo site THE INTERCEPT.

Investido no cargo de ministro da Justiça, além de omisso e sem produtividade na pasta, Moro prevaricou seguidamente.

Moro prevaricou no caso das milícias digitais; no caso dos candidatos laranjas do PSL; na vergonha mundial a que fomos submetidos com os 39 kg de cocaína no avião presidencial da FAB; mentiu descaradamente quando foi revelado pelo The Intercept seus diálogos proibidos com os promotores da Lava Jato; não moveu uma palha para investigar o tráfico internacional de armas envolvendo o vizinho e amigo do clã Bolsonaro, Rone Lessa, acusado de ser o assassino de Marielle.

Seu amigo e ex chefe Jair Bolonaro não é menos delinquente, a tentativa de obstrução da justiça para proteger os filhos no conhecido caso do porteiro do condomínio; o dinheiro depositado na conta de sua esposa pelo invisível Queiroz; os ataques à democracia e suas instituições, STF e Congresso Nacional. Ou seja: eles se merecem.

Além dessas lamentáveis constatações é doloroso ver um governo constituído por um verdadeiro amálgama de contradições que inquieta a lógica política dos normais.

Milhões de evangélicos pentecostais que à noite vão ao culto e bradam o “ama ao próximo como a ti mesmo” mas no dia seguinte, celebram o discurso em favor da tortura proferido por seu presidente; Militares não patriotas, é um caso único no mundo, que defendem a agenda entreguista do ministro da Economia, Paulo Guedes; outros tantos bolsonaristas que ostentam a bandeira de Israel nas manifestações e convivem pacificamente com os admiradores de Hitler e Mussolini.

Essa irracionalidade explica o ódio à ciência e a crença na terra plana. É como se o medievo tivesse retornado numa versão mais ignara disposto a por na coivara da insensatez além de bruxas, todos os que ousam pensar.

A complexidade do mundo que vivemos exige reflexão e gesto dos que, assim como eu, estão perplexos com esse mundo orwelliano.

Não contente com suas rasas opiniões sobre economia, democracia, meio ambiente. Bolsonaro, em plena pandemia da COVID19, resolveu defender a cloroquina como um remédio milagroso.

O tempo da ciência não é o tempo do mercado, só alguém sem discernimento e sem o mínimo de conhecimento da história não sabe disso.

Parte da mídia e seguidores que veem Moro como herói consideram que ele foi enganado. Como se fora uma vestal, que, achando que tinha entrado no convento, na realidade entrara inadivertidamente num lupanar e só dezoito meses depois percebeu que o ambiente era incompatível com sua moral ilibada.

Como diria o sambista Bezerra da Silva “Você com um revólver na mão é um bicho feroz, sem ele anda rebolando e até muda de voz. Isso aqui tá pra nós.”. À exceção do coronavírus, tá ficando bom.

*Carioca Nepomuceno é professor de História na UFAC e dirigente do PT/AC.

Leonildo Rosas

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