Alianças políticas para 2020 compõem verdadeiros sambas do criolo doido

Alianças políticas para 2020 compõem verdadeiros sambas do criolo doido

Coligações são formalizadas sem conteúdo programático ou ideológico

Há 54 anos, em 1966, o escritor e jornalista Sérgio Porto escreveu a letra de uma canção satírica chamada “O Samba do Crioulo Doido”, que vai refletir um pouco como será o processo eleitoral deste ano.

Usando pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, Sérgio Porto, satirizava a obrigatoriedade imposta às escolas de samba de retratarem, na seus sambas de enredo, somente fatos históricos.

O escritor carregou na ironia.

No seu enredo, descreveu como a histórica Chica da Silva obrigou a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, que depois foi eleito como Pedro II.

O Pedro II ficcional procurou o padre Anchieta e, juntos, proclamaram a escravidão. 

O Samba do criolo doido trouxe diversos disparates que reuniu, num mesmo contexto, personalidades de épocas e lugares distintos, bem como em condições totalmente absurdas.

Nos próximos dias, os cidadãos e cidadãs eleitores do Acre também irão se deparar com situações impensáveis, teoricamente, na formação de alianças nas eleições municipais.

Os casamentos de jacarés com macacos virão de todos os lados. Não haverá distinção de esquerda, direita ou centro.

As preocupações programáticas e ideológicas foram relegadas a segundo planos. Cada um está olhando para o seu rabo, para a própria sobrevivência.

Nada é por acaso.

Até 2018 haviam polos distintos. O campo de jogo era bem demarcado. De um lado haviam os partidos que formavam a Frente Popular do Acre. No polo oposto os demais partidos oposicionistas.

O resultado da eleição trouxe a oposição ao poder. A Frente Popular espatifou-se. O PT, partido que liderava a aliança saiu enfraquecido, sem força para reagrupar antigos e históricos aliados.

O poder une até porque espinhos. A derrota faz aflorar mágoas.

Mas as eleições de 2020 não serão diferentes apenas pelo o que aconteceu há dois anos.

A legislação eleitoral de impõe sérias dificuldades aos partidos considerados de menor expressão.

Não haverá coligação proporcional. Cada legenda terá que formar a sua própria chapa e eleger o maior números de vereadores possíveis. É questão de sobrevivência.

Essa nova regra justifica a proliferarão de candidatos a prefeitos, principalmente em Rio Brancos, capital do Acre.

Em Rio Branco, há cerca de 10 pré-candidaturas postas, nas mais diversas tonalidades ideológicas. Saber quantas sobreviverão até novembro é o dilema, pois muitas não tem lastro para chegar longe.

Voltando ao samba do criolo doido. 

Vamos iniciar pela salada na cidade do abacaxi grande.

Em Tarauacá, adversários que não suportavam nem o cheiro um dos outro estarão no mesmo palanque do médico Rodrigo Damasceno.

Rodrigo Damasceno foi prefeito do PT. Quando os petistas saíram da moda, embarcou no PSDB. Mesmo assim, ele terá apoio da antigos companheiros e dos camaradas do PC do B.

O caso de Tarauacá é emblemático, mas não é exclusivo.

Em Cruzeiro do Sul, o professor Marcelo Siqueira retirou a sua candidatura pelo PT porque os petistas, segundo publicado na imprensa, irão apoiar Fagner Sales, filho do morubixaba da política juruaense Vagner Sales, do MDB.

As misturas ideológicas estão nos quatro cantos do Acre.

Em Brasileia, a prefeita petista Fernanda Hassem terá como companheira de chapa uma integrante do Progressistas, partido do qual o governador Gladson Cameli pediu afastamento para apoiar a prefeita de Rio Branco, Socorro Neri (PSB).

Esse processo de Rio Branco é o mais emblemático.

Tanto o governador quanto a prefeita ignoraram tradicionais aliados para embarcar numa aliança contra todos os prognósticos.

Gladson e Socorro certamente confiam na força das máquinas administrativas para alcançarem os seus objetivos, mas há um problema: na política a quebra de compromissos assumidos costuma custar caro.

Como a população poderá dá crédito a que virou as costas para quem lhe ajudou chegar no poder? As urnas trarão a resposta.

A partir de hoje os partidos podem realizar as suas convenções. O prazo vai até o dia 16 de setembro. Até lá, vários casamentos políticos baseados em estruturas de gelo serão formalizadas.

A fragilidade dos partidos fragiliza a democracia, isso é um fato. Mas fazer o quê, num país que fez a opção de criminalizar a política e fragilizar as instituições?

Infelizmente, nesse samba do criolo doido também há o risco de lembramos do clássico “A revolução dos bichos”, de George Orwell, publicado em agosto de 1945.

Também usando sátira, o escritor narra um história de  corrupção e traição. Cansados da opressão humana, os bichos tomaram o poder, mas comentaram os mesmo erros dos antigos dirigentes. 

No final, terminaram na mesma mesa fazendo alianças, o que dificultou diferenciar quem era porco de quem era humano.

Esse é o risco de alianças sem programa e sem ideologia.

Leonildo Rosas

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