Acre: do governo da floresta ao governo sem floresta

Acre: do governo da floresta ao governo sem floresta

Na semana que celebramos o Dia da Amazônia, neste cinco de setembro, o Acre recebeu uma das piores notícias quanto à preservação de sua maior e insubstituível riqueza natural: em agosto ocupamos a deplorável terceira posição no ranking das queimadas entre os nove estados que formam a Amazônia Legal. Deixamos comendo fuligem Mato Grosso e Rondônia, que por muito tempo ocupam as manchetes sobre a devastação do bioma dentro de seus territórios.

Por Fábio Pontes

Em julho já tínhamos batido outro recorde: também superamos Mato Grosso no quesito desmatamento. Usando aquele velho bordão político, nunca antes na história deste estado sua cobertura florestal na casa dos 87% esteve tão ameaçada como agora. O momento político vivido pelo Acre e pelo Brasil é o grande responsável por essa devastação num estado que por muito tempo nem merecia nota de rodapé quando se falava em incêndios ou desmatamento na Amazônia. 

Saímos de um período consagrado como “governo da floresta” – ou também a florestania – durante os 20 anos de gestões petistas para uma época que agora podemos chamar de o governo sem floresta”. Tinha minhas críticas aos governos do PT no Acre, mas não podemos negar que foi naqueles tempos que o estado detinha uma certa vanguarda nas políticas de proteção da floresta, servindo até de exemplo para outros estados da região. De repente, da noite para o dia, tudo mudou e hoje não somos o melhor dos exemplos.   

Culpar apenas Jair Bolsonaro por este avanço da devastação da Floresta Amazônica já virou clichê e motivo para se ganhar curtidas nas redes sociais. Sabemos que o presidente do Brasil atua no sentido inverso de assegurar a proteção do meio ambiente, não só aqui da Amazônia. Se é capaz de boicotar as medidas sanitárias para se evitar o contágio por coronavírus que já matou mais de 120 mil brasileiros, o que dirá a proteção da floresta. 

Tão ou quão responsável por essa omissão criminosa de proteção da Amazônia estão os governadores da região. Afinal, são suas decisões e falas que influenciam diretamente o comportamento da população local, de quem eles estão mais próximos, diferente de um presidente que prefere ficar no Palácio da Alvorada falando porcarias para seus fiéis. 

Assim é no pequeno estado do Acre, onde é possível se esbarrar com o governador em qualquer esquina.

E, sim, as falas e práticas (e até a ausência de ambas) do atual mandatário do Palácio Rio Branco são os grandes responsáveis pelo atual cenário de destruição da Amazônia aqui nestas bordas. Situação que se agrava com as mesmas atitudes vindas de Brasília. Tanto Gladson Cameli quanto Jair Bolsonaro acionaram o gatilho para a destruição do bioma. A eleição de parlamentares com visões retrógradas (a maioria) também contribui para o cenário devastador.  

Aqueles que por muitos anos estavam contidos por fiscalizações e punições que ainda existiam saíram do armário com as eleições, em 2018, de Cameli e Bolsonaro. O resultado disso é uma devastação jamais vista no Acre em tempos recentes, chegando até aos locais mais remotos e de difícil acesso. É assustador ver municípios como Jordão e Marechal Thaumaturgo no topo do ranking do fogo no mês passado.   

A prova disso estão nos dados do Inpe. Em 2019, primeiro ano de Gladson Cameli, o desmatamento da Amazônia no Acre bateu todos os recordes dos últimos 11 anos: 700 km2. Perdemos não apenas floresta (vida), mas também investimentos internacionais por meio do programa de compensação por redução do desmatamento. 

De uma certa forma, desde sua campanha para governador, Gladson Cameli já dava sinais de que ia colocar em prática aquilo que hoje chamamos de “passar a boiada” – trágica frase proferida pelo ministro da destruição do Meio Ambiente, cujo nome – para nossa paz de espírito – é melhor nem ser aqui citado. 

Se eleito, falava Cameli, ia flexibilizar as normas ambientais para facilitar a vida de quem queria produzir, incluindo fragilizar as fiscalizações ambientais por meio do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). “Tirar o Imac do pescoço do produtor”, era o que ouvíamos nos debates e programas eleitorais. 

Seu mote era fazer do agronegócio o grande carro-chefe da economia acreana, em detrimento de uma política de valorização dos recursos florestais.  Quando assumiu a cadeira de governador, vivia mais em Rondônia do que aqui em busca de se inspirar no modelo de desenvolvimento do estado vizinho. 

Modelo este cujos efeitos sociais e ambientais conhecemos bem. Como governador fez aquilo que poucos políticos costumam fazer; cumprir suas promessas para atender ao setor rural. A primeira atitude foi deixar de pagar o subsídio dos produtores de borracha, alegando revisão dos contratos deixados pela gestão anterior. 

Somente em agosto último, após 20 meses de calote, o governo decidiu repassar o dinheiro para as pequenas famílias extrativistas que tanto dependiam do subsídio para melhorar sua renda. Outra medida foi extinguir o Instituto de Mudanças Climáticas (IMC), vista como herança petista. O problema é que esta herança é responsável por gerenciar 25 milhões de euros enviados pela Alemanha e Reino Unido para o Acre conter o desmatamento, investindo justamente em acesso a tecnologias aos pequenos produtores rurais. Vendo a trapalhada que cometera, recriou o órgão.  

Depois veio a trágica fala de num palanque em Sena Madureira desmoralizando a atuação do Imac, dizendo que ninguém mais precisava pagar as multas aplicadas “porque agora quem está mandando sou eu”.  

A consequência de tudo isso vivemos hoje: desmatamento e queimadas recordes. Queimadas que expelem para o ar uma fumaça tóxica que somos obrigados a respirar quase todos os dias neste período de estiagem severa. Diante de tantas lambanças, não houve outra opção senão decretar emergência ambiental. 

E assim chegamos a mais um cinco de setembro tendo muito mais a lamentar do que comemorar. Vale deixar o alerta para toda a sociedade acreana: proteger a floresta não é coisa de petista, de comunista; é garantir a sobrevivência desta e das futuras gerações. Proteger a Amazônia é proteger a vida em todas as suas formas, inclusive a nossa.

Veja mais sobre meio ambiente no blog do Fábio Pontes

Leonildo Rosas

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